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Ciclo de entrevistas desportivas

Susana Feitor

  • Foi a primeira presidente da Comissão de Atletas Olímpicos.
  • Em seis convocatórias para os Jogos Olímpicos participou por cinco vezes.
  • Já superou os 40 anos e está há 25 consecutivos na alta competição.
  • O 3º lugar no Campeonato Nacional de Juniores destacou uma jovem de 13 anos que competiu com atletas de 18 e 19 na prova de 5 kms marcha.
  • Com 14 anos obteve o 6º lugar num Campeonato da Europa de Juniores. Foi considerada a Revelação do Ano do Atletismo.
  • Em sua homenagem, a pista de atletismo de Rio Maior tem o seu nome.
  • Compete com um boné em homenagem à maratonista suiça que finalizou a prova cambaleando desequilibrada, por desidratação, nos Jogos Olímpicos de 1984.
  • Sendo o mundo maior que a Europa, teve dificuldades em aceitar que depois de vencer o campeonato do mundo de juniores fosse, apenas, vice-campeã da Europa.
Entrevista realizada por: Bruno Gouveia

Inicia-se na marcha um pouco a contragosto, pois a corrida era do que gostava mesmo. Um acordo com o treinador faz com que Susana Feitor rapidamente conheça o sucesso na marcha atlética.

Com 15 anos é a grande surpresa do Campeonato do Mundo de Juniores, dado que vence essa prova. Chega a Rio Maior, sua terra natal, com o título de campeã mundial na bagagem e fica estupefacta com o alvoroço gerado. Rio Maior recebia a sua nova heroína com pompa e circunstância. Esse título “empurra” a autarquia a investir no desporto.

Passados mais de 25 anos consecutivos na alta competição, Susana Feitor ainda faz parte do leque de convocáveis à seleção portuguesa e continua a ser uma das atletas mais respeitadas e temidas desportivamente.

A marchadora portuguesa está na fase final da sua carreira desportiva e concedeu ao Diretório Desportivo uma entrevista onde aborda vários temas da sua ligação ao desporto.

Desde que se entende, sempre esteve ligada ao desporto?

Não. Comecei a praticar atletismo aos 12 anos.

Na família não tinha ninguém ligado ao desporto.

Não havia outras opções?

A verdade é essa mesma. Não existiam outras opções.

Eu sou da altura em que o ciclo preparatório (5º e 6º anos) na minha terra era lecionado através da televisão.

Como não havia aulas de educação física, a Câmara Municipal achou por bem contratar uma pessoa, o Jorge Miguel, que era treinador de atletismo, para dinamizar atividade física junto de todas as crianças das várias telescolas do concelho de Rio Maior. Sendo ele treinador de atletismo, convidava as crianças para as provas.

Eu como gostava de desporto, decidi logo inscrever-me e praticar qualquer coisa.

E a Susana já era muito competitiva?

Direi que fui fazendo as provas sem qualquer tipo de compromisso. O desporto era uma forma de estar com os amigos, sair da aldeia e ir, aos fins de semana, para outros sítios.

Mas, no início, a sua inclinação recaía na corrida?

Sim, no início já mostrava características de ser melhor a correr durante mais tempo do que a correr mais rápido. Portanto, adaptava-me melhor a provas de resistência e tinha melhores resultados quando havia mais metros.

Mesmo depois das primeiras provas de marcha, e com os resultados excecionais que obteve, ainda manteve alguma relutância em ficar só na marcha?

Isso aconteceu.

Eu experimento a marcha numa atividade na escola, tal como experimentei outras disciplinas do atletismo. Mas como me destaquei entre os meus colegas, quando havia provas de marcha a nível distrital era eu que as fazia. Mas continuava a correr.

Contudo, numa altura em que tentei obter mínimos para um campeonato nacional e não os consegui, o treinador sugeriu-me que tentasse na marcha. E aí consegui mínimos para um campeonato de juvenis e quando o faço consigo também mínimos para os juniores.

Ainda era infantil, mas já estava a conseguir fazer marcas que me permitiam ir às categorias de juvenis e juniores.

E são essas marcas, desportivamente relevantes, que começam a alterar o seu pensamento?

Tudo se altera quando vou ao Campeonato Nacional de Juniores, organizado na Maia. Estava entusiasmada porque ia ao Porto e nunca lá tinha ido.

Antes da prova o treinador disse-me “vai com calma porque são 5 kms. É uma distância muito grande e não estás habituada. Faz isso, mas tenta não ser a última”. E eu respondi: deixe lá estar que eu vou conseguir e não vou ser última.

E a surpresa aconteceu?

Sim! O que é certo é que fui andando, sempre a pensar que não podia ser última, mas fui passando uma, mais outra e mais outra e fui parar ao pódio.

E foi aí que as coisas se começaram a revelar. Ou seja, eu com 13 anos, num campeonato nacional de juniores, vou ao pódio e é nessa altura que ele me pergunta se eu queria fazer marcha ou corrida.

Da marcha não gostava muito, porque era a única dos meus colegas a fazê-lo. Eu gostava mais da corrida porque ia em conjunto com os outros. Não queria estar sozinha.

Aí surge uma proposta?

Exatamente. O treinador propôs-me que durante o inverno, até que chegasse a época de pista, que era a partir de março, faria estrada e corta-mato.

Quando a época de pista chegasse, cada um dos meus amigos faria a sua disciplina e eu fazia a marcha. Achei que aquilo fazia sentido e aceitei.

O caminho que começa a trilhar na marcha atlética é sempre em crescendo?

Efetivamente assim aconteceu. No ano seguinte, já com 14 anos, cada vez que ia a uma prova ia melhorando os meus recordes pessoais.

E há uma altura em que os recordes pessoais passam a ser recordes distritais e logo a seguir são recordes nacionais.

Quase de prova a prova trazia um recorde. Estava sempre a melhorar, ao ponto de conseguir fazer mínimos para o Campeonato da Europa de Juniores e aí é que as coisas se revelam de um modo completamente estrondoso. Estava apenas com um ano de prática quando consigo fazer mínimos para representar Portugal no Campeonato da Europa de Juniores e isso foi logo uma emoção enorme.

Qual o resultado desse campeonato?

Um 6º lugar e recorde nacional.

E a marcha começa a entrar mais vincadamente na sua vida?

Sim. Seguindo mais ou menos o mesmo planeamento, volto a obter mínimos, desta feita para o Campeonato do Mundo de Juniores, e é quando tudo se revela uma grande surpresa, pois com 15 anos sagro-me campeã do mundo.

A ascensão foi rápida?

Foi tudo extremamente rápido, pois estava apenas com dois anos de prática dedicada à marcha.

Com 15 sou campeã do mundo de juniores. Com 16 vou, pela primeira vez, a um campeonato do mundo de seniores e aos 17 anos tenho a minha primeira participação olímpica, em 1992. Foi tudo muito rápido.

Foi aprender a marchar e a dar por mim a competir ao mais alto nível.

Qual a sensação que tem ao estar pertinho da meta e saber que a vitória ou o título será seu?

É fantástico! É emocionante!

Às vezes a emoção é tão grande que dá vontade de chorar.

Nos primeiros tempos era tudo muito espontâneo. As coisas aconteciam na sequência umas das outras, pois foi tudo muito rápido, com muita naturalidade.

Mas se subir e chegar ao topo foi fácil, numa sequência de acontecimentos quase natural, depois, manter-me e conseguir atingir níveis de performance que me pudessem levar às medalhas nas seniores foi outra coisa.

Por isso, quando ia a um campeonato internacional ou a uns Jogos Olímpicos e verificava que estava a atingir o meu objetivo, a sensação ao nos aproximarmos da reta final e da meta é de que valeu a pena a paciência e toda a luta diária. E esses momentos quando estão a chegar são fantásticos, porque nos dão a recompensa por aquilo que lutámos, depois de muito trabalho e de muitos treinos.

A Susana é uma pessoa emotiva ou procura manter-se o mais fria possível?

Eu deixo as emoções fluírem e gosto de sentir o momento o mais possível.

Isso engloba vários momentos. Pensamos na demora da preparação que existiu até chegarmos ali. E aquele momento da vitória também é muito rápido.

A partir de uma certa idade, que não sei se tem a ver com a idade ou com a experiência, ao viver um determinado resultado, tento absorver o mais possível aquilo que se está a passar. É tentar viver as emoções inerentes a cada um dos momentos que compõem a competição. Sente-se o momento de cortar a meta e a atmosfera do público e das adversárias. Sente-se toda a cerimónia protocolar quando vamos ao pódio e o ouvir o hino nacional.

São momentos que, apesar de tudo, passam muito rápido.

O melhor que nós temos são as memórias e, porque estas são agradáveis, fazia pressão em mim própria para repeti-las. Para sentir que valeu a pena e que trabalhando havemos de ter a recompensa.

A sua terra, Rio Maior, desde sempre soube recompensá-la enormemente, especialmente quando regressa com o primeiro título mundial?

Sim. Foi uma surpresa para toda a gente, a começar por mim.

Quando a notícia chegou a Rio Maior, as pessoas ficaram eufóricas, porque conquistar uma medalha num campeonato do mundo era algo que nunca tinha acontecido por estas terras.

As pessoas sentiram que uma conterrânea tinha conquistado uma coisa fora de série.

Primeiro tiveram muita curiosidade em conhecer-me. Quem eu era e de onde é que vinha? E depois, as entidades oficiais, principalmente a Câmara Municipal, deu muito ênfase aos resultados. Inclusive, acharam que seria boa ideia investir numa área como o desporto, porque isso iria trazer mais gente e mais investimento à terra.

Foi entendido como um bom cluster e o investimento aconteceu. Na sequência surge o complexo desportivo e a Escola Superior de Desporto de Rio Maior.

Hoje em dia, temos um complexo desportivo de nível mundial, de muita qualidade, e além do mais a escola tem mostrado que foi, também, um bom investimento.

A nível internacional, depois de vencer o mundial vem um europeu onde é segunda classificada?

Depois de vencer esse mundial ainda faço mais 3 provas de juniores: dois mundiais e um europeu. E sou prata num mundial e num europeu.

Nos primeiros anos como sénior, não tenho grandes conquistas a nível internacional. Tenho participações em mundiais, europeus e Jogos Olímpicos, mas até que apareça a minha primeira medalha como sénior, ainda demora alguns anos. Só em 1998 é que consigo a minha primeira medalha como sénior, num Campeonato da Europa.

E no ano seguinte fico mesmo à beirinha de uma medalha de bronze num mundial, mas só volto a conquistar medalhas em 2005, com bronze num campeonato do mundo.

Quando faço a pergunta anterior, refiro-me ainda às competições internacionais de juniores. A Susana Feitor foi campeã do mundo e num Europeu de juniores seguinte é segunda classificada. Existiu algum sentimento de frustração pela medalha de prata?

Naquela altura entendi assim, porque eu não tinha a experiência do que era a competição internacional. Não fazia a mínima ideia.

Quando regressei do Campeonato do Mundo, não sabia muito bem o que iria acontecer a seguir. Na minha lógica, fazia sentido que ao participar num Campeonato da Europa, e sendo a Europa mais pequena que o mundo, à partida estariam menos atletas, e eu teria a obrigação de ganhar, uma vez que tinha sido campeã do mundo.

Essa pressão que eu criei em mim fez com que chegasse ao Campeonato da Europa, no ano seguinte, e não fosse capaz de estar tranquila e focada, como o tinha estado no mundial do ano anterior.

Isso fez com que o nervosismo me inibisse um pouco.

Isso foi uma grande lição, porque a partir daí passei a guiar-me pela ideia de que apenas tinha de dar o meu máximo. Só desse modo é que eu conseguiria trazer resultados interessantes.

Não esqueci esse ensinamento desde muito jovem.

Essa aprendizagem foi fácil e rápida?

Não foi fácil. A medalha de prata daquela prova soube-me muito mal. Foi-me muito difícil gerir isso.

Mas passados alguns dias, e depois de ter falado com colegas e ouvido conversas de treinadores, a minha aprendizagem levou a que compreendesse que o desporto não tem essa lógica. O desporto tem várias situações, algumas controláveis e outras não, e cada vez que vamos competir é um dia completamente diferente. Apensa há que estar focado para aquele dia e mais nada.

Os Jogos Olímpicos são um apogeu enquanto organização desportiva?

Sim, sem dúvida!

Os Jogos Olímpicos, como competição que é, é algo universal, mas que ultrapassa aquilo que nós podemos esperar.

Cada país tem a sua organização e, logo, os Jogos Olímpicos têm traços comuns mas são eventos sempre diferentes.

As nossas expectativas, porque vimos na televisão ou porque outros atletas nos contaram como é, não são acompanhadas pela realidade. Os Jogos Olímpicos têm uma dimensão muito grande e ultrapassa a nossa capacidade de imaginação em relação ao que é uma competição.

A sua estreia nos Jogos Olímpicos foi uma surpresa para si?

Eu senti-me muito pequenina, porque aquilo era uma coisa gigante e cansativa e porque tínhamos de andar sempre de um lado para outro.

Estávamos em Barcelona, em pleno verão, com um calor muito agressivo. Apesar de ser tudo tão divertido e espetacular porque se conhece muita gente ao mesmo tempo, as emoções andam todas à flor da pele e temos ainda de competir. E o objetivo é este mesmo.

Portanto, durante três semanas, a maioria das modalidades competem ao mais alto nível e em todo o mundo se fala daquilo, porque a comunicação social está em peso a noticiar o que ali se passa.

Do ponto de vista da logística e das condições que a aldeia olímpica proporciona, elas são as mais propícias para obter o sucesso? Isto porque recordo Carlos Lopes, em entrevista, justificar o porquê de não ficar na aldeia olímpica, para estar mais focado, precisamente no ano em que vence a maratona.

Pois, não sei dizer como era nos anos 80. Isso tem, essencialmente, a ver com cada um. Existem atletas que gostam de estar no seu cantinho e em tranquilidade até à hora de competir. Outros vivem uma rotina social, que pode ser limitada só à equipa portuguesa.

Só para ter uma ideia, nós vamos comer a um local gigantesco onde está muito mais gente. Mas, para mim, o pior é quando a distância entre o local onde vivemos, normalmente apartamentos, até ao treino é muito grande. Aí é que a rotina é muito exigente e muito maçadora.

Repare que são momentos em que temos de poupar energias, tendo o mínimo desgaste possível. Evitamos andar muito de um lado para outro, tentamos comer corretamente e cuidar da hidratação. Em suma, procuramos estar focados e, esses pormenores tais como passar muito tempo dentro de um autocarro, para ir e voltar do treino, ou ter que caminhar muito para chegar aos transportes é o pior.

Já estive em vários tipos de vilas olímpicas. Algumas delas possibilitam treinar lá dentro, o que, só por si, é uma vantagem extraordinária. Aconteceu em Barcelona, por exemplo, na minha primeira participação. Em Sidney também foi assim. Já em Pequim a pista de treino era fora da aldeia. Mas nós, da marcha, conseguíamos treinar dentro da aldeia olímpica e praticamente não precisávamos de grande logística de transportes e de perder muito tempo para fazer isso.

Quem decide ficar fora da aldeia é porque já sabe que isso vai ser assim ou porque conseguem montar a logística própria de rotina do treino com menos desgaste energético, com um quotidiano voltado para aquilo que se está ali a fazer, que é potenciar a performance para o dia da competição.

Do que esteve a descrever, sente que de organização para organização, ou de Jogos Olímpicos para Jogos Olímpicos, as organizações tentam melhorar ou essas informações não são tidas em conta?

As organizações são diferentes.

O problema é que dependem de várias circunstâncias. Dependem, por exemplo, da localização dos jogos. Nalgumas cidades isso é possível, noutras não é. Nalgumas modalidades isso é possível, noutras não. Por exemplo, a vela tem de ficar num local onde tenha água e, para isso, por vezes, existe uma segunda vila olímpica exclusivamente para esses atletas. O hipismo também carece da mesma situação.

E quando os atletas ficam na mesma aldeia olímpica, chegam a sair de manhã e só regressar à noite.

É muito cansativo?

É evidente que é muito cansativo, mas, muitas vezes, não há como dar a volta a isso: só há aquela solução e não é possível fazer de outra maneira.

Mas a verdade é que em termos de vila olímpica evoluíram algumas coisas. As condições disponibilizadas a cada país têm melhorado.

Aquando das visitas que os dirigentes fazem, são apresentados pedidos e solicitações à organização e esta procura adequar as situações.

Como por exemplo?

Ao nível das adequações alimentares. No refeitório, a diversidade de alimentos disponíveis é gigantesca. Para além dos vários tipos de comida – a asiática, a ocidental, a africana – temos também os vários tipos de confeções, com os grelhados, os cozidos, etc.

E, portanto, dá para as várias modalidades terem o seu tipo alimentar.

Não podemos esquecer que as modalidades de combate são as que têm de perder peso e ter uma atenção muito grande às calorias que ingerem. As organizações neste aspeto têm melhorado bastante.

Também as condições de treino dentro da própria aldeia têm melhorado, nomeadamente com a inclusão de ginásios e espaços indoor para treinos, como o badminton.

O que é que têm sentido ao nível da segurança?

Tudo está envolto num nível de segurança muito alto, o que faz com que todos os processos demorem sempre muito tempo.

Cada vez que saímos ou entramos na aldeia olímpica, e no estádio, passamos sempre por raio-x, tendo de mostrar sempre o que trazemos. Ser revistado é parte do quotidiano.

Ninguém se opõe a esse nível de segurança ou sentem-se incomodados com esses níveis elevados?

Não. Aliás, nós agradecemos. Toda a gente se recorda das histórias dos anos 70, em Munique, do ataque terrorista. E, como é óbvio, ninguém quer que haja stress desse nível. Já chega o stress competitivo e já chega o stress para treinar.

Embora o nível de segurança dependa de país para país, ele é sempre bem vindo.

É ou foi profissional do atletismo?

Não se pode chamar profissional porque não há classificação como tal. Oficialmente falando, é uma modalidade amadora.

Tive dedicação total. Ou seja, só praticava atletismo. E enquanto estive a treinar com objetivos de finalista ou de medalhada nos campeonatos do mundo, europeus e afins, nem dava para fazer de outra maneira, porque o nível de exigência é tão alto e o dia só tem 24 horas.

Havia que cuidar do nosso instrumento de trabalho, que é o corpo, para prevenir lesões, devido, por exemplo, a fadiga adicional. Daí que, para estar ao mais alto nível é muito difícil conciliar com uma segunda atividade.

E quem é que paga a opção de deixar tudo o resto em prol de uma carreira desportiva, no seu caso no atletismo? Presumo que não seja o clube!

Sim, o meu clube nunca teve capacidade para pagar. Até 2009 tive um patrocinador, que era a Nobre, e era graças a esse patrocínio que pude abdicar de, por exemplo, vários anos na faculdade, porque tinha ali a minha fonte de rendimento e poderia usá-lo para continuar a praticar atletismo.

Também fui patrocinada, e sou, por uma marca desportiva – Adidas – e, logo aí, quando temos acesso ao material que necessitamos, não é preciso comprá-lo, o que é, também, uma forma de ter o apoio necessário para poder praticar.

Por outro lado, temos o apoio do Comité Olímpico e da Federação de Atletismo em que nos vão ajudando a subsidiar o planeamento. Ou seja, os estágios e as competições onde vamos.

Tudo isso é proporcional ao nível que atingimos.

Há escalões?

Exatamente. Consoante a performance que atingirmos os valores financeiros alteram-se. Se é nível medalhado é nível 1, se está enquadrado nos finalistas é nível 2 e o nível de semi-finalista é o 3.

Esses níveis determinam o acesso a uma bolsa, que é regulamentada, e é uma forma de nós também termos ali algum suporte financeiro. Não é muito, mas vai servindo para conseguirmos viver com este pensamento: agora vou apostar, durante alguns anos, na minha atividade desportiva, e deixo a minha atividade profissional ou a minha atividade académica um pouco em compasso de espera. Mas não podemos deixar completamente porque, depois, quando termina a atividade desportiva precisamos de uma profissão e precisamos de ganhar a vida.

Nunca se sentiu atraída por fazer carreira fora de Portugal?

Senti-me atraída, sim. E era uma coisa que ao longo da minha carreira não me importava de tê-lo feito. Contudo, na marcha atlética não há muito esse intercâmbio. Enquanto na natação ou noutras disciplinas do atletismo, como na velocidade e nos saltos isso acontece, na minha disciplina não. Porque não existem os grupos de trabalho como existem nas outras modalidades e nas outras disciplinas.

Um bom exemplo é os Estados Unidos, onde as universidades apostam muito nos atletas para poderem fazer as competições universitárias. Aqui isso não acontece.

Acha que Portugal teve as condições necessárias, ou mínimas, para que pudesse continuar a desenvolver as suas performances desportivas?

Mínimas fui tendo, porque fui abdicando de umas atividades em função do atletismo.

Mas, na verdade, se eu poderia ter melhores condições? Sim. Principalmente no que respeita a que os atletas consigam estudar e tirar os cursos, sem grandes interrupções. Porque se é possível noutros países, também seria possível em Portugal.

Eu acredito que algumas universidades, pela forma como estão organizadas, ainda vão conseguir mudar esse apoio e ajudar atletas estudantes.

Mas não é uma coisa generalizada.

O seu contexto familiar ajudou-a a chegar onde chegou?

Desde muito pequenina que vivo num contexto familiar diferente. O meu pai emigrou para África em 1983 e, desde essa altura, que ele vem a Portugal duas a três vezes ao ano.

Quando comecei a praticar atletismo ele não estava em Portugal e, portanto, para ele foi um pouco estranho, porque venho de uma aldeia agrícola e de um ambiente familiar tipicamente rural, como era naquela altura. O normal era as meninas crescerem, irem à escola, namorarem, casarem, terem filhos, etc.

Desde os 12 anos que começo a sair da norma que estávamos todos habituados na aldeia. Conclusão: o meu pai estranhou e não achou muita piada que eu andasse a praticar atletismo aos fins de semana. Não sabia para onde eu ia e com quem estava e, então, efetivamente não foi fácil para ele. Mas assim que comecei a conquistar resultados internacionais, a aparecer nos jornais e inclusive na televisão, foi mais fácil pois, afinal, aquilo que eu andava a fazer não era apenas brincar. E desde que o atletismo, também, não interferisse no meu rendimento escolar, estava tudo bem.

E não interferiu até eu chegar ao 12º ano, onde as coisas foram sempre perfeitas. Eu consegui ter boas notas e consegui bons resultados desportivos.

O problema foi quando chego à universidade, em que a exigência era muito maior e os meus hábitos de estudo teriam de ser alterados. Aí não fui capaz de me adaptar. Nessa altura as coisas começaram a correr mal em termos de rendimento escolar.

Mas como eu tinha alguma independência financeira e de gestão da minha vida, o meu pai apenas me alertava e eu descansava-o confirmando-lhe a sua preocupação e justificando a minha opção pelo atletismo numa fase em que os rendimentos desportivos estavam a ser bons. E fui vivendo assim.

Já a minha mãe sempre me apoiou, porque achava que era uma coisa saudável. Como acompanhava o meu dia a dia, da parte dela foi diferente.

Portanto, o meu enquadramento familiar foi propício para que eu pudesse praticar o atletismo. Mas também não sabemos como seria se o meu pai estivesse em Portugal.

A sua imagem de marca era o competir com a barreta…

Sim, com o boné, é verdade.

Ainda hoje continua a ser?

Sim. Eu gosto de competir com boné.

No início, as razões pelas quais eu comecei a usar boné tiveram a ver com o meu conforto, pela chuva ou pelo sol. Para me proteger.

Mas também usei o boné porque, no meu subconcsciente, tinha uma imagem de uma atleta suiça, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, a cortar a meta com um boné branco. Essa atleta conseguiu chegar ao fim, em grande esforço, e mostrou uma capacidade de resistência sobre-humana. Eu fiquei com aquela imagem na cabeça e achei que a marcha tinha essas características de dureza.

Sendo a marcha uma vertente com distâncias longas, eu pensei que o boné seria um objeto que me iria ajudar a aguentar mais o clima.

E, efetivamente, desde essa altura passei a usá-lo.

Tem o seu quê de místico?

Algumas pessoas diziam que era superstição. Outros diziam que era outra coisa qualquer.

Eu dizia: é o que for. Sinto-me bem com ele, por isso vou usá-lo.

Acabei por sentir que era um objeto que me fazia companhia. Quando estava mais nervosa era no boné que eu agarrava.

Atualmente o boné é uma peça do meu equipamento.

A preparação de uma atleta, como a Susana Feitor, envolve muitas variáveis. Num desporto coletivo sempre existem os colegas para comporem algo que seja feito menos bem. Numa modalidade individual tudo funciona diferente. Como gere as situações muito boas e as menos agradáveis?

As pessoas que estão à nossa volta e que trabalham connosco acabam por ter esse papel, porque apesar de ser uma modalidade individual não é possível obter resultados trabalhando sozinha. É sempre preciso alguém. É sempre preciso alguma coisa extra, que não é viável só com o trabalho individual.

Nós conhecemos atletas que têm treinadores e atletas que não têm treinadores. Mesmo esses que não têm treinadores e se treinam a si próprios precisam de alguém. Nem que seja para ajudá-los a recuperar fisicamente. Falo de um fisioterapeuta, de uma equipa médica, de alguém de Ciências do Desporto para ajudar a fazer análise fisiológica ou biomecânica. Precisam de uma infraestrutura onde vão treinar e alguém tem de fazer a manutenção disso. Enfim! Seja como for. Nós nunca conseguimos nada sozinhos e eu sempre me apoiei muito no treinador, porque ele é quase como um companheiro de luta. Nós planeamos em conjunto, pensamos nos objetivos em conjunto. E, a mim, cabe-me executar aquilo que planeámos.

Mas, na verdade, o brainstorming é feito com mais pessoas.

Mas há o outro lado, o treino diário. Ter 15 ou 20 kms para fazer e desde que começo até que acabo sou eu e os meus pensamentos. Já o andebol ou o futebol coloca os colegas em interação, a não ser que estejam a fazer treino individualizado.

Eu prefiro treinar em grupo. A verdade é que é sempre menos chato. Este tipo de modalidade, como o atletismo, a natação, o ciclismo, requer muita repetição. E ao mesmo tempo, muitos treinos são iguais, o que se acaba por se tornar monótono.

Estando em grupo, mesmo sem falar, uns puxam pelos outros. É um pouco isso?

É verdade. Uns puxam pelos outros. Há sempre um mais divertido que quebra a rotina. Qualquer coisa acontece na vida de cada um e durante o treino isso é falado. Coisas boas ou más.

Há sempre qualquer coisa que torna o ambiente menos monótono.

Iniciou a sua carreira académica, há cerca de 20 anos, pela Faculdade de Agronomia. Correto?

É verdade, fui para engenharia florestal. Digamos que fui influenciada pela vivência agrícola de onde nasci. Eu venho da Serra dos Candeeiros e sempre tive uma ideia de que a minha vida seria dedicada a uma de duas grandes áreas: ao corpo humano ou à natureza. E pensei que as florestas e tudo o que envolvesse isso, seria muito interessante.

Não cheguei ao fim porque era muito exigente e não consegui conciliar com o atletismo.

Eu acho que, na verdade, nunca me consegui adaptar a fazer duas atividades ao mais alto nível. Estudar era muito exigente, porque tinha de ter um ritmo constante e contínuo de assistência às aulas. E o treino também. Por isso, acabei por não conseguir gerir uma coisa e outra para que tivesse sucesso nas duas e fui desistindo, aos poucos, da parte académica.

Sente que terá sido a melhor opção?

Isso foi uma má decisão porque, se calhar, não fui bem acompanhada e não tive, provavelmente, a motivação suficiente para investir e para gerir melhor o meu tempo em relação aos estudos.

Mas recentemente voltou à universidade?

Sim, estou neste momento na Escola Superior de Desporto em Rio Maior com o objetivo de, por um lado, terminar a carreira desportiva e, por outro, para fazer uma melhor transição para o mercado de trabalho. Daí estar a fazer Gestão Desportiva em casa.

Estou aqui, em Rio Maior, a fazer o curso e ao mesmo tempo preparando o finalizar da minha carreira desportiva. Tudo no mesmo local, porque treinar em Lisboa, como aconteceu durante alguns anos, nunca foi fácil. A marcha pede muitos kms na estrada e Lisboa não é muito favorável a fazer treino de estrada. Para além disso, não existem muitos circuitos onde se possa treinar tranquilamente, embora existam, é certo, muitas outras facilidades.

Mas o essencial, no fundo, não existia?

Exatamente. Se eu fosse de outra modalidade ou de outra disciplina do atletismo, e se tivesse tido os mesmos resultados, Lisboa teria sido perfeito, porque tudo se concentrava na mesma zona.

Quando falei da vila olímpica e da logística diária, também procuro diariamente evitar perder tempo em pequenas coisas, como viagens e o desgaste associado.

Tenho colegas que levam uma hora a chegar ao treino. Todos os dias, ir e voltar, consomem-lhes duas horas. Se considerarmos que, muitas vezes, deveríamos a treinar duas vezes ao dia, perde-se imenso tempo nessa tarefa. E é um tempo inútil, principalmente se estivermos a conduzir e estivermos parados no trânsito. Nos transportes públicos ainda dá para fazer outra coisa, como estudar ou ler. Se formos a conduzir isso é ainda pior.

Provavelmente é uma fonte de stress?

A mim acontecia-me exatamente isso. Cada vez que me deslocava em Lisboa sentia um grande nível de stress e andava sempre numa velocidade de vida que não me agradava de maneira alguma. Por isso, esses fatores externos que implicam com o rendimento no treino acabam por vir ao de cima com lesões, por vezes, em alturas difíceis. Porque o corpo acaba por se queixar.

Com o curso em gestão desportiva, ainda assumirá, no futuro, a gestão da pista de atletismo com o seu nome?

Pois, não sei. Isso é uma coisa interessante e às vezes penso nisso. O que é que eu poderei fazer em Rio Maior?

Mas, também, as pessoas têm que acreditar em mim e, provavelmente, pensarem como eu. Pensarem que eu poderei ser útil à terra. Eu penso que sim!

Terei de ganhar essa oportunidade e mostrar trabalho. Mas até chegar a esse dia, ou a esse momento, quero acabar o curso e terminar a carreira.

E que significado teve para si atribuírem o seu nome à pista. Foi uma surpresa?

Quando me disseram – e foi o presidente da Câmara da altura que me informou que tinha isso como objetivo e que ir propor em Assembleia Municipal – achei extremamente interessante.

Recordo-me que o Carlos Lopes e a Rosa Mota já tinham o seu nome atribuído a um pavilhão e não havia uma pista de atletismo com o nome de nenhum atleta. Posso estar enganada, mas acho que em Portugal fui a primeira atleta a ter o nome numa pista de atletismo.

Outra questão era que, habitualmente, essas situações acontecem a título póstumo. E o presidente da Câmara disse-me “temos de te fazer uma homenagem agora, que estás no auge da tua carreira, para as pessoas não se esquecerem um dia que Rio Maior, uma terra com 20 mil habitantes, teve uma atleta nos Jogos Olímpicos. Uma atleta que ganhou medalhas”. Enfim, o certo é que mais atletas vieram e Rio Maior já teve um total de sete atletas qualificados para os Jogos Olímpicos, em várias modalidades. Isso, para uma cidade tão pequena, é, efetivamente, um feito histórico.

Há pouco falou na atleta suiça que a inspirou a usar o boné e que demonstrou uma enorme capacidade de superação. Essa é uma das suas mais brilhantes características enquanto atleta e enquanto pessoa. A Susana Feitor tem uma enorme capacidade de superação. Dá sempre tudo de si?

Sempre, se calhar não.

E quando não o faço, às vezes arrependo-me. Posso ficar a pensar, hoje podia ter feito um bocadinho melhor, porque sou muito exigente.

Mas acho que procuro sempre dar o melhor de mim. Isso é uma verdade. Em todas as circunstâncias, mesmo quando não estou com capacidade para fazer determinada tarefa, ou porque estou limitada fisicamente ou porque naquele dia não é um bom dia, não importa, há uma razão qualquer, na minha cabeça e no meu íntimo está sempre presente a máxima: vou desempenhar isto da melhor forma que sei.

E quando, por uma qualquer razão – por questões físicas, porque não consigo aguentar mais o sofrimento ou não consigo ultrapassar aquele limite que me está a ser pedido  – desisto de uma prova, arrependo-me sempre. Fica uma sensação amarga, uma sensação de tarefa inacabada e eu não gosto disso. Mesmo que seja uma decisão consciente, porque é a melhor. Como por exemplo, porque estava a sofrer com uma lesão e não estava a aguentar e protegi-me para amanhã, ou para a semana, poder desempenhar melhor a minha função.

Mesmo com todas as razões que sejam justificáveis, essa sensação de tarefa inacabada é muito difícil de aceitar. E eu não gosto disso.

Não sei porquê. Sempre fui assim desde muito pequena.

Que tipo de pensamentos ocorrem ao longo de uma prova? São díspares? São imensos?

São, são. São imensos e são diferentes consoante o estado de forma. Consoante o estado de espírito.

Mas, habitualmente, estamos focadas na tarefa que estamos a desempenhar. Porque durante o percurso há interação com as adversárias, há que ter atenção aos abastecimentos, enfim, os ritmos, os andamentos, a gestão do próprio esforço. Tudo isso ocupa a nossa mente.

Já a treinar, tudo nos passa pela cabeça, apesar de termos de estar concentrados no que estamos a fazer e tomar atenção aos ritmos, à técnica, à hidratação, etc. Como estamos mais folgados, como é o caso dos treinos, os nossos pensamentos recaem sobre a ordem do dia ou sobre algo que nos aconteceu de bom ou menos bom.

Pensamos na mais diversas coisas.

Foi a primeira presidente da Comissão de Atletas Olímpicos. Qual a missão dessa comissão?

Sim, fui a primeira presidente. Ocupei esse cargo desde 2002 até 2005.

O objetivo principal é ser uma entidade consultora dentro do Comité Olímpico e que leva os assuntos, que dizem diretamente respeito aos atletas, ao executivo do Comité e às pessoas que têm a capacidade de decisão das matérias relacionadas com a preparação.

Como surge?

A comissão nasce por uma diretiva internacional. O Comité Olímpico Internacional estimulou os vários Comités Olímpicos nacionais a constituírem uma comissão de atletas, para que estes tivessem um elemento que os representassem no seio das decisões.

Isso é importante para os atletas?

Sim, porque muitos atletas sempre se queixaram que, às vezes, os dirigentes tomavam decisões que nada tinham a ver com a modalidade e nem sempre eram a favor das melhores condições de preparação e de competição.

A seguir aos Jogos Olímpicos de Sidney, o Comité Olímpico de Portugal aceitou constituir uma comissão de atletas e convidaram vários atletas para isso.

Fui votada pelos meus colegas para ser a presidente. Fui a primeira e, desde então, tenho estado ligada à Comissão de Atletas Olímpicos até hoje.

O que faz verdadeiramente a comissão?

Hoje uma das grandes preocupações é, para já, levar os problemas dos nossos colegas, mais rapidamente, ao sítio certo. Muitas vezes eles não sabem a quem recorrer e pedir ajuda.

Entre tantos exemplos, são questões simples de legislação ou questões muito complexas que tenham a ver com preparação, com estágios e com competições. Nós encurtamos a distância entre o atleta e quem pode solucionar a questão levantada.

Sobre outra grande preocupação da comissão, a minha experiência fala muito diretamente do coração, que é aquilo a que já me referi: de não ter conseguido gerir a minha vida académica com a minha vida desportiva. Assim, de há algum tempo para cá temos o objetivo de montar um sistema que permita que haja pessoas que acompanhem os atletas e que os consigam aconselhar, ajudar na gestão do quotidiano, ir às universidades falar com os conselhos pedagógicos ou com determinados professores.

Ainda não conseguimos montar isso como deve ser, porque o nosso trabalho é voluntário e usamos as nossas horas livres à medida das nossas capacidades. Mas é uma tarefa que exige investir muito tempo.

Por outro lado, também há a história dos finais de carreira. Uma das preocupações da Comissão de Atletas, que foi desenvolvido em conjunto com o Comité Olímpico Internacional, é tentar que os atletas tenham um plano B, para que a qualquer momento o possam acionar e terem uma salvaguarda para sua vida.

Então não está vocacionada apenas para os atletas olímpicos? Acaba por, indiretamente, abranger uma panóplia de atletas que estão a competir?

Isso é verdade. Na prática estamos disponíveis para ajudar quem está no alto rendimento.

Mas a nossa prioridade é direcionada para os atletas olímpicos: os que estão em atividade ou que já terminaram.

Mas se um atleta de alta competição vier pedir-nos ajuda, nós tentaremos ajudá-lo exatamente como se fosse um atleta olímpico.

Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, será que contarão com a Susana Feitor?

Eu tinha em mente fechar o ciclo, desde que vim dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, e terminar a carreira em Londres, nos Jogos Olímpicos de 2012. Infelizmente na qualificação para Londres fiz a minha lesão mais grave da carreira e acabei por estar 18 meses condicionada.

Recomecei a treinar calmamente e o meu pensamento não foi direcionado para grandes resultados, mas apenas em voltar a ter nível internacional para despedir-me. E até agora isso ainda não aconteceu.

Tenho grande concorrência por parte das minhas colegas. São três os lugares para campeonatos do mundo, da Europa e Jogos Olímpicos e temos sido quatro a lutar por esses lugares. Por exemplo, neste momento (semana passada) está a decorrer o Campeonato do Mundo. Eu tive nível internacional mas não foi suficiente para ganhar o lugar entre elas. É claro que, se calhar, se estivesse noutro país com menor nível global poderia lá estar.           

Por isso, não estou a fazer grandes planos.

Tenho que pensar numa coisa tão importante que é o meu curso, porque o meu plano B depende bastante do meu curso académico.

Em termos desportivos também se levanta a questão dos apoios. Neste momento estou fora do projeto olímpico e não tenho apoios. Apesar de ter mínimos e de cumprir os critérios de qualificação para os Jogos do Rio.

Ou seja, sempre levanto a questão: estarei eu com a capacidade física para lutar com as minhas colegas e conseguir a qualificação para o Rio?

Por isso é que decidi não fazer grandes planos de longo prazo e ir vivendo, quase, de ciclo de treino a ciclo de treino.

Neste momento, treino com o objetivo de me aproximar da marca de uma hora e trinta, que é uma marca de nível internacional e que me coloca nos tops internacionais. Sei que ainda sou capaz e que consigo. Isso pode permitir-me que integre novamente o projeto olímpico e tenha apoios. A partir desse dia, sim, se calhar penso nos Jogos. Porque não?

Para já, é uma coisa que vejo à distância.

Até 2010 fez a sua carreira no Clube de Natação de Rio Maior. Porque é que se torna individual?

Torno-me individual, um pouco, pela parte do acompanhamento.

Tive um patrocinador até 2009 que me suportava todas as minhas despesas e, com isso, eu conseguia gerir a minha vida. A partir de 2009 deixei de ser patrocinada por essa empresa e pedi ajuda ao meu clube. A ver se, pelo menos, ajudavam a pagar as despesas essenciais.

Houve ali uma grande confusão e uma série de situações que eu não gostei. Por isso decidi não querer mais.

Eu prefiro estar individual do que andar nestas confusões. Sou eu que tenho de me sustentar e tenho que dar a volta. Estava a vestir a camisola de um clube que não estava a ser a mesma que a minha.

Porque entra e porque sai da direção da Federação Portuguesa de Atletismo?

São quase as mesmas razões que me fazem entrar e sair. Ou seja, sou convidada mediante um projeto e ideias que considerei extremamente interessantes para o futuro do atletismo.

Inicialmente mostrei-me pouco disponível para colaborar, mas disponível para ajudar a nível intelectual, com a promoção de algum projeto, a desempenhar pequenas tarefas que pudessem ser úteis para o atletismo, desde que não interferissem muito na minha atividade como atleta.

Sendo as ideias e os projetos fantásticos, acreditei neles e nas pessoas.

Considerei que o futuro do atletismo, não sendo fácil, devido às circunstâncias económicas que o país tem atravessado, trilharia um bom caminho com esses projetos. As pessoas estavam disponíveis a lutar e eu achei que estava a juntar-me a uma equipa vencedora.

No decorrer do tempo em que estive como vogal, as coisas não correram da melhor maneira. Acho que algumas decisões não foram as mais corretas. Fui aguentando a situação acreditando que, a qualquer momento, as coisas poderiam mudar. E porque não? Poderiam melhorar.

Mas há um momento em que decisões técnicas e diretivas, com as quais eu não concordei, me afetam diretamente na pele. Achei que aquilo foi a gota de água na sequência de outas situações.

Que tipo de situações?

Nunca as comentei, nem tenho interesse em comentar, porque acho que o atletismo deve olhar o passado para fazer um futuro melhor.

Lavar roupa suja não interessa nada.

Disse o que tinha a dizer internamente, na hora certa. Disse a quem deveria ter dito e tomei a decisão de não continuar nestas circunstâncias, deixando o cargo de vogal.

Enquanto vogal da direção da Federação, o seu trabalho incidiria especificamente sobre a marcha ou generalizado por todas as vertentes do atletismo?

Exatamente, era muito generalizado.

Nas reuniões de direção tentávamos participar em todos os temas, o mais possível, para ajudarmos com soluções que resolvessem os problemas que iam surgindo.

Apenas o presidente e vice-presidente é que tinham funções executivas. Os restantes membros da direção colaboravam ao nível dos conhecimentos e das ligações que tinham no mundo exterior, para além da colaboração intelectual.

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