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Ciclo de entrevistas desportivas

António Fidalgo

António Fidalgo
  • Começou a jogar futebol aos 16 anos no Sporting de Espinho e aos 17 transferiu-se para o SL Benfica

  • O serviço militar obrigatório interrompeu-lhe, momentaneamente durante 3 anos, a carreira profissional de futebolista. Apenas realizou 3 meses de treinos e um final de época memorável no Leixões, emprestado pelo SL Benfica.

  • Na época desportiva 1976/1977 jogava no Sporting Clube de Braga e foi considerado, pelas pontuações dos jornais desportivos, o melhor jogador da 1ª Divisão, na sua posição

  • Jogou futebol profissional como guarda-redes. Os dois clubes de maior relevo nacional onde jogou foram Benfica e Sporting

  • Tem um irmão que é conhecido noutra modalidade desportiva. Dois dos seus mais relevantes atletas quase obtiveram medalhas nos Jogos Olímpicos de Atlanta e de Sidney. —- esta frase está dividida em 2 banners, que são o 4 e o 5. No entanto, a frase sai inteira e é a 5ª

  • Apesar do SL Benfica lhe propor ordenado superior, optou por transferir-se para o Sporting CP

  • Logo na primeira época no Sporting CP, depois da transferência do SL Benfica juntamente com o Eurico Gomes, é campeão nacional

  • Abandonou a carreira profissional de jogador de futebol aos 31 anos, para não se sujeitar a mais nenhuma cirurgia. Jogava no Estoril, treinado por Mário Wilson

  • Está, há mais de duas décadas, ligado ao comentário desportivo na rádio e televisão. — está como banner 6 e é 9º a ser colocado

  • Ministrou em 2014, às equipas técnicas das seleções de futebol da Grécia, formação sobre as componentes mentais, pouco tempo antes da seleção grega partir para o Mundial do Brasil

Entrevista realizada por: Bruno Gouveia

Foram sete irmãos mas apenas dois se dedicaram ao desporto. Ambos escolheram modalidades com bola e ambos incidiram a sua prática desportiva com a utilização das mãos. As redes também estiveram presentes nas vidas de ambos os desportistas. Enquanto na modalidade do Francisco se marcava pontos, na do António gritava-se golo. E era precisamente o golo que ele evitava.

Francisco Fidalgo é do voleibol, sendo um conceituado treinador português. Mas é António Fidalgo que nos dá o prazer de falar de si.

António Fidalgo foi um conceituado guarda-redes do futebol português da década de 70 e início de 80, numa carreira profissional destacada pela passagem pelas várias seleções de Portugal e pela sua ligação, entre outros, ao SL Benfica e Sporting CP, onde obteve vários títulos nacionais. É treinador de futebol, comentador televisivo e radiofónico e é formador em coaching desportivo e em programação neurolinguística

Porquê o futebol?

Porque quando comecei a praticar ainda se jogava futebol de rua e nos recreios da escola era a modalidade que se praticava, embora, no liceu, também tivesse jogado voleibol e andebol. Mas o bichinho era do futebol.

Começou quando?

Comecei a jogar futebol já com 16 anos, nos juvenis do Sporting de Espinho, da cidade onde vivia. No ano a seguir fui para os juniores do Benfica e começou aí o meu trajeto.

Foi tudo muito rápido…

Foi tudo extremamente rápido.

Inesperado?

Sim, muito inesperado. Mesmo antes de ingressar no Benfica, ainda a jogar no Sporting de Espinho, fui chamado, com a idade de juvenil, aos seniores da primeira equipa. E nessa altura fui convocado para a seleção de juniores. Portanto, em seis ou sete meses, aconteceu tudo rapidamente.

Se existiam dúvidas quanto à modalidade, com certeza foram dissipadas com estes acontecimentos?

Eu jogava para me divertir. Claro que tinha o sonho de ser profissional de futebol, mas a minha primeira preocupação dessa altura eram os estudos. Frequentava o equivalente ao 12º ano de escolaridade e ia fazer, no final do ano letivo, o exame de frequência à faculdade. O meu primeiro objetivo era esse e o futebol um hobby, mas, rapidamente, e com a transferência para o Benfica, tudo se modificou.

E a opção para a baliza? Normalmente os jovens sentem-se mais atraídos pelas posições que marcam golos.

Foi influência do meu pai, que tinha sido guarda-redes nalgumas equipas perto de casa, mas claro que eu gostava mais de jogar à frente. À frente a concorrência era mais forte. Depois, curiosamente, o meu treinador tinha sido guarda-redes e colega do meu pai. Quando soube quem eu era não me deu hipótese de não ir para a baliza.

Que grandes diferenças dos métodos de treino do seu tempo de jogador com as atuais?

No caso específico da minha posição – guarda-redes, basta lembrar que nunca tive um treinador de guarda-redes, mesmo jogando no Benfica e Sporting. Normalmente, eram os treinadores-adjuntos que nos treinavam. Ou então, também aconteceu muito, eram os guarda-redes que se iam treinando mutuamente. No caso do Sporting com o Meszaros e no Benfica com o Bento. Não tínhamos nenhum orientador ou algum treinador específico.

Funcionava muito num modo autodidata?

Sim, era mais autodidata. Víamos como os outros faziam e tentávamos imitar.

Comecei com 16 anos a treinar numa caixa de areia, com uma baliza por trás.

Era mais pelo que víamos. Funcionava pelo princípio da modelagem e, talvez, também, algo inato. Um talento talvez inato.

Uma das grandes diferenças são os valores financeiros envolvidos. No seu período de profissional os ordenados não eram comparáveis com os valores que se ouvem falar atualmente. Embora também se saiba, provavelmente, que em Portugal, atualmente, os clubes de topo é que conseguem manter e dar essa fama de ordenados altos ao futebol. Estou certo?

Exatamente. Se formos analisar os jogadores inscritos na Federação Portuguesa de Futebol, há uma percentagem mínima que ganha acima dos 1.500 ou 2.000 euros. Não tenho números, mas é uma percentagem extremamente baixa.

Mas eu não gosto de ir por aí. Naquela altura ganhava-se o que se ganhava, agora ganha-se o que se ganha. Hoje é completamente diferente. Na altura em que jogava não existiam transmissões televisivas e não havia marketing e publicidade de um modo estruturado. Vivia-se muito da quotização.

Eram outros tempos. O futebol era um desporto, hoje é considerado, quase, uma indústria.

Não sou nada saudosista. Vivi o tempo que vivi e agora vivem-se outros tempos, que não são melhores nem piores. São diferentes.

Mas chocam-lhe os valores financeiros envolvidos no topo do futebol ou é um facto natural?

Chocam-me tanto como quando ouço qualquer artista de cinema dizer que com um determinado filme ganhou “n” milhões.

Eu analiso sempre em função daquilo que o futebol também dá a ganhar. Tenho bem presente que a FIFA será, hoje em dia, senão o maior, dos maiores empregadores do mundo, mais que algumas multinacionais. E o motor de toda essa indústria são os jogadores.

Costumo dizer, no tempo em que comecei, e meio a brincar, não havia treinadores, não havia balizas, não havia público. Mas nunca conseguimos fazer um jogo sem jogadores. Portanto, são eles o motor dessa indústria e recebem em proporção daquilo que proporcionam às outras pessoas ganharem. Se considerarmos um plano social e o contexto de crise do tempo que vivemos é natural que algumas pessoas se sintam feridas com os valores financeiros que alguns jogadores auferem. Mas é como noutras áreas em que as pessoas são também recompensadas por aquilo que dão a ganhar e nos negócios que geram.

Os bons destacam-se e ganham sempre mais, em qualquer área profissional…

Em todas as áreas, os bons, aqueles que se distinguem pela excelência são mais bem remunerados que os outros.

O António Fidalgo viveu grandes momentos. Questiono especialmente as sensações que têm os jogadores quando se deparam, nomeadamente nos grandes dérbis ou clássicos portugueses, envolvendo Sporting, Benfica e Porto, com milhares de pessoas nas bancadas, em grande efervescência quando as equipas entram?

Os momentos de maior ansiedade e nervosismo são antes do jogo começar. Uma, duas ou três horas antes os níveis de ansiedade estão mais elevados. Depois vamos tentando controlar as emoções e geri-las.

Depois do árbitro apitar para o início do jogo, pelo menos no meu caso pessoal, só reparava nos espetadores depois de acabar o jogo. Durante o jogo os jogadores estão muito focados naquilo que têm de fazer.

Claro que não é a mesma coisa jogar com 60 ou 70 mil pessoas e jogar com 1.000. Mas durante o jogo a diferença não é assim tão grande. Nós estamos concentrados naquilo que temos de fazer, com o foco e a atenção toda aí, e abstraímo-nos muito do ambiente que nos rodeia durante o jogo. Depois, claro, se ganharmos são aqueles momentos mágicos. Momentos que não mais são esquecidos na vida. E se não conseguirmos ganhar são momentos de desânimo, ou grande desânimo, e que também não se esquecem.

São vivências emocionalmente muito fortes, mas que nos envolvem mais antes do jogo do que propriamente durante o jogo.

Vencer um campeonato nacional é uma sensação esplêndida?

É uma explosão! É o clímax!

É chegar a um momento em que não queremos sair de lá. É querermos viver permanentemente naquele espaço e naquele tempo.

Nem temos aquela sensação que deveríamos ter, que é o pragmatismo de pensar que aquilo vai passar. Nós vivemos esses momentos como se fosse um momento quase eterno, em que surgem sensações, emoções e sentimentos dos mais variados, mas todos de uma alegria muito intensa e de uma grande euforia.

Podemos esquecer-nos de alguns jogos, mas existem momentos que são inesquecíveis, como por exemplo vestir a camisola da seleção de Portugal que são também momentos únicos que ficam gravados na memória de cada um de nós.

Falou na seleção. Há um momento nas suas convocatórias à seleção portuguesa em que o selecionador convoca-o com o Bento, deixando Vítor Damas fora do grupo. Surpreendeu-o?

De algum modo sim. Não foi uma surpresa racional, mas sim emocional. Eu estava bem. Para as pessoas aferirem desse momento, eu era suplente do Bento no Benfica e na seleção A. Era titular da seleção de Esperanças e da seleção B. Portanto, eu passava a vida em estágios das seleções.

Só que numa certa convocatória, em que existiriam dois ou três jogos, creio, foram convocados os três guarda-redes. O meu guarda-redes de referência, quando era miúdo, era o Vítor Damas. Sempre tive uma grande admiração pelo Vítor, que depois se tornou num grande amigo meu. Não resisti, aquando da eleição dos que ficavam, e disse-lhe “Vítor, se há alguns anos me dissessem que iria estar numa seleção contigo e que tu ias embora e eu ficava, diria que as pessoas eram malucas”.

Qual a reação de Vítor Damas?

Deu-me os parabéns e disse que eu merecia. Nós tínhamos uma convivência muito salutar fora do campo. Nunca jogámos na mesma equipa, mas tínhamos uma forte ligação de amizade.

As condições atuais da prática desportiva diferem muito do passado?

Completamente. É completamente diferente. Eu comecei a jogar com botas de travessos. E não havia as estruturas que os jogadores hoje têm à sua disposição, a todos os níveis: médico, paramédico, fisioterapia, etc.

Na altura em que joguei era o mínimo. Hoje seria irreal que uma equipa sobrevivesse com essas estruturas.

Mas eram tempos diferentes. As exigências também eram outras.

Mas era “um mínimo” por desconhecimento da necessidade de algo mais?

Não se apostava tanto no futebol. Nem o futebol era uma indústria. Daí ser preciso frisar que o futebol não movimentava o dinheiro que hoje movimenta.

Sou do tempo em que os treinadores tinham dificuldade em observar os adversários. Muito menos tinham pessoas para os observar. A equipa técnica era composta por um treinador principal, um treinador adjunto e um preparador físico. Havia o médico e um ou dois massagistas. E estou mesmo a falar dos grandes clubes.

Depois existiam, fora dos clubes, outras estruturas de apoio que os atletas recorriam e que, por vezes, tinham parcerias com os clubes.

Terminou a carreira de futebolista profissional com que idade?

Com 31 anos. Muito cedo!

Porquê?

A partir dos 28 anos, momento em que fui para o Sporting, num jogo com o Marítimo tive, logo no princípio da época, uma lesão grave. Foi a primeira vez. Fraturei o menisco e tive rotura de um ligamento. Fui operado três vezes a esse joelho e passei a ter algumas lesões que me condicionaram sempre um pouco.

Já na parte final da carreira, quando estava a jogar no Estoril, foi-me detetado outro problema, agora no joelho esquerdo. O médico que consultei, particularmente, disse-me que se eu quisesse continuar a jogar futebol, pois tinha 31 anos, a caminho dos 32, tinha mesmo de ser operado.

Se não quisesse praticar desporto de alto rendimento poderia continuar a viver até ao dia que me desse problema. E resolvi nessa altura, que estava no Estoril. Já tinha atingido o topo e não poderia ir muito mais acima daquilo que fui, pelo que preferi terminar aí e não me sujeitar a mais outra cirurgia.

Essa decisão foi dramática ou um facto natural?

Foi um facto natural. Tinha perfeita consciência de que já tinha alcançado muito no futebol. Muito, não em relação às expetativas que criei, pois sempre quis alcançar mais. Mas senti que naquele momento estava na curva descendente. O Estoril estava na II Divisão e era a primeira vez que jogava naquela divisão. Queria ter outros objetivos.

Treinador?

Sim. Já tinha tirado o curso de treinador, o que o fiz muito cedo, pois sempre foi uma ambição ser treinador.

Nessa altura Mário Wilson era o treinador do Estoril. Eu falei com o “Velho Capitão”, ele não concordou comigo, pois preferia que eu continuasse a jogar, dado que considerava que eu tinha potencialidades para jogar por muitos mais anos.

Talvez tenha sido a parte psicológica a ter alguma preponderância. Acho que já não tinha a motivação para continuar a jogar. E resolvi mudar de rumo. Continuar no futebol, mas noutras funções e noutras perspetivas.

Tenho a sensação que para muitos atletas, independentemente da modalidade desportiva que praticam, o momento em que têm de decidir abandonar, por vezes, tem algum dramatismo associado…

O momento em que abandonei não foi um ato muito dramático, pelas razões que já expliquei. Mas, depois, passado uns tempos, analisando as coisas mais a frio, começa a sentir-se alguma nostalgia.

Eu, felizmente, comecei a trabalhar logo como treinador, porque vejo colegas que depois de acabarem e estando algum tempo sem trabalharem ou, pelo menos, sem estarem ligados ao futebol ou enveredarem por outras áreas, custa-lhes bastante. Esse hiato de tempo não será dramático, mas custa bastante.

Eu absorvi as coisas depois. Mais a frio. E comecei a sentir uma certa nostalgia e a pensar se terei feito bem ou feito mal e se me apetecia ainda estar lá dentro.

Mas fiquei tão motivado com as novas funções de treinador, porque os desafios eram tão grandes, que pouco tempo tive para pensar nisso.

Substituiu uma função, introduziu outra e continuou a viver!

Sim. Continuei a viver no futebol, que era aquilo que me interessava, pois adoro futebol.

Adoro o jogo, é bom realçar isso.

Já tinha tirado o curso de treinador há cinco ou seis anos. Portanto, já tinha como objetivo, depois de acabar de jogar, ser treinador. Foi um conjunto de circunstâncias que se reuniram. Foi uma casualidade o médico ter-me dito aquilo e não ter ponderado muito e ter decido que havia chegado à altura de virar a página.

Existia ou existe aconselhamentos para atletas que estejam num finalizar de carreira, para facilitar uma transição para uma alternativa viável? Os clubes ou os empresários têm essa função?

Francamente, não estou bem dentro desses assuntos, mas não me parece. Haverá, casualmente, a nível dos empresários ou a nível do clube. Nota-se claramente que algumas referências dos clubes continuam a trabalhar nos próprios clubes, o que é extremamente salutar e vejo isso com muito agrado: jogadores que representaram o clube e que trabalharam muito pela camisola que envergaram e que, de certa forma, são reconhecidos e lhes é permitido continuar a trabalhar na estrutura do futebol.

Mas a nível de aconselhamento psicológico creio que não haverá. No meu tempo não havia nada!

Sente que algum aconselhamento seria importante?

Sim.

Penso que algumas coisas já se vão fazendo. Mas esse aspeto deveria ser muito mais cuidado. Não sei se a responsabilidade será dos clubes ou dos próprios atletas. Não quero atribuir essa responsabilidade somente aos clubes. Poderá haver algum cuidado por parte deles, mas a responsabilidade maior também deverá recair sobre os próprios atletas, nomeadamente enquanto pessoas.

Mas considerando que os clubes, muitas vezes, como foi o seu caso, recrutam atletas jovens, deslocando-os do seu ambiente familiar, para longe de casa, não deveriam substituir-se à família? Sei que, atualmente, existe preocupação no sentido de os dotar com outras ferramentas que não apenas o futebol, que lhes permita que, se a aposta no futebol não for a ideal, consigam ter outro caminho para palmilhar. Será que os clubes, ainda numa fase inicial de uma carreira profissional, não deveriam ter alguma responsabilidade em introduzirem conteúdos teóricos aos jovens, como gestão de carreira, lidar com a comunicação social, sabendo como tirar proveito dela, informática, línguas, etc. Que lhe parece?

Aquilo que me é dado saber, sem ter uma noção muito profunda do que acontece nos clubes, é que, pelo menos nos grandes emblemas, os que têm escolas de formação, centros de estágio e em que os jovens são acompanhados a nível escolar, psicológico, etc., há um acompanhamento desses jovens. Acredito que terá de ser reforçado naquelas fases maiores de transição.

Quando eu fui para Lisboa e depois quando eu fiz a transição da formação para os seniores, para a primeira equipa, estava numa idade extremamente difícil – a adolescência e final da mesma, em que necessitamos de muito acompanhamento. Os jovens necessitam de muito acompanhamento. E penso que hoje já se faz, embora só a nível das maiores instituições portuguesas.

Nos outros clubes a responsabilidade terá de ser mesmo dos próprios atletas, porque os clubes não têm capacidade para o fazer. Poder-se-á discutir se as verbas gastas poderiam ser melhor empregues de outra forma, num apoio mais constante. Mas penso que já há alguma preocupação nas academias, onde se trabalha muito não só em prol do jogador, mas também da pessoa. Já se vê não só o atleta, mas também o indivíduo.

Hoje questiona-se muito se o desporto profissional é benéfico para o ser humano. Porque se crê que um atleta seja levado ao limite e mesmo para além dele. Qual a sua opinião?

O desporto de alto rendimento será prejudicial. Dou o meu exemplo: não é por acaso que tenho o joelho direito com artroses e que tenho de colocar uma prótese. O joelho esquerdo dói-me um bocado após uma caminhada. Já não consigo correr de há alguns anos para cá, porque tive de colocar próteses nas ancas, por desgaste.

O desporto de alto rendimento tem um preço que, normalmente, se paga mais tarde. Porque somos forçados a limites que o corpo não está preparado. E estou a falar só do aspeto fisiológico.

É natural. Passados uns anos, após deixarmos de jogar, os despertadores começam a fazer-se ouvir.

É um preço aceitável?

Não sei se é um preço muito alto para aquilo que fizemos. Eu, pelo menos, fiz aquilo que mais gostava. Cheguei a patamares que não pensava. Poderia ter chegado a outros, eventualmente. E claro, eu como os outros, vamos pagando o preço por aquilo que fizemos. Agora estou em crer que o desporto de alto rendimento, hoje em dia, ou é muito bem acompanhado fisiologicamente ou terá repercussões menos agradáveis mais tarde.

Quando estava no ativo, enquanto profissional de futebol, os treinos eram diários ou bi-diários?

Eram diários, bidiários, tridiários!

No início de época era terrível. Hoje, quem ler esta entrevista poderá não acreditar: havia jogadores a desmaiar e a vomitar com as cargas que se davam nos inícios de época. Tive muitos inícios de época em que treinava três vezes ao dia: às 7, às 10 e às 17 horas. Nessa altura as cargas físicas eram extremamente elevadas. Trabalhava-se muitas vezes em montanha. Cheguei a ir para a Bulgária treinar a 2.000 metros de altitude.

Eram cargas que hoje em dia, com as novas metodologias de treino, já não se justificam.

Com o decorrer da época desportiva passavam a um só treino diário?

Após o início de época passava a ser só uma vez por dia.

Os guarda-redes tinham o mesmo tipo de treino dos restantes colegas?

Os guarda-redes tinham umas cargas de treino muito específicas. Era um treino completamente diferente. Quase não éramos englobados no treino tático. Atualmente um guarda-redes tem de ser, forçosamente, englobado no esquema tático da equipa. Hoje em dia as equipas não jogam em 4x3x3, nem em 4x4x2. Jogam em 1x4x3x3 e 1x4x4x2. Portanto o guarda-redes já faz parte do trabalho tático da equipa.

Como é que ocupavam o tempo livre durante o dia?

Estávamos completamente libertos. Uns cometiam asneiras, outros menos asneiras, outros portavam-se muito bem. Enfim!

Havia uma liberdade completa. Entrávamos em estágio na véspera ou antevéspera de jogo. No tempo em que eu subi a sénior, no Benfica, eram dois dias. Entrávamos na sexta-feira em estágio para jogar ao domingo.

Para garantir que a equipa estivesse toda bem?

Era mais o estilo inglês. Jimmy Hagan era o treinador. Depois mudamos, começamos a entrar ao sábado. E também tivemos muitos jogos sem estágio.

Mas quando acabava o treino éramos completamente livres e um bocadinho sujeitos a todos os condicionalismos próprios da profissão.

Acredita que hoje existe uma maior uniformização dos métodos de trabalho e equilíbrio entre todas as equipas, contrariamente ao que acontecia no passado?

Exatamente. Até porque toda a informação está à distância de um clique. A única coisa que difere é o que as pessoas fazem com essa informação.

Agora mesmo nos clubes menos estruturados, teoricamente, porque não conheço as estruturas de muitos desses clubes já se produz um trabalho similar ao gerado nos clubes de maior dimensão.

Principalmente na metodologia de treino, nos aspetos técnicos, táticos e estratégicos já se trabalha mais ou menos da mesma forma.

Nos aspetos mentais é que tenho algumas dúvidas.

Ainda há poucos anos ouvi um jogador, que creio ter sido Pedro Barbosa no Sporting, referir-se a João Moutinho, enquanto jovem acabado de chegar ao plantel principal, tratar os jogadores mais velhos por senhor. Isso, no passado, era uma norma e uma demonstração de respeito e fez parte de uma época?

Sim, fazia parte de uma época e, muitas vezes, esse “senhor” era um reforço.

Nessa fase de transição, quando passei dos juniores para os seniores, entrei no balneário onde estavam o Eusébio, o Simões, o José Henrique, o Jaime Graça, entre tantos outros. E depois havia os mais novos como o Nené, o Vítor Martins, o Humberto Coelho, o Toni, que eram pouco tempo mais velhos que eu, e me ajudaram imenso na integração.

Em todo o caso, no espaço de um ano, passei a conviver numa área reduzida, como é o balneário, com os meus ídolos da adolescência. Portanto, havia, naturalmente, sem ser forçado, um respeito muito grande por essas figuras. Mas a grande maioria que eu conheci, para não dizer todos, simplificavam muito a integração. Eram pessoas simples que nos ajudavam nessa fase. O exemplo do Eusébio para mim é único. Ele mal me viu no balneário veio logo falar comigo, dizendo-me que já me tinha visto jogar nos juniores e que eu era bom guarda-redes. Enfim, uma série de palavras que geraram logo empatia.

Outro aspeto que facilitava a integração é que, quando éramos juniores, treinávamos também com a primeira equipa, pelo que já havia alguma relação.

Eu tive a felicidade, e lembro-me perfeitamente, de ver grandes talentos aparecerem. Já como sénior, recordo duas referências dessas: o Chalana no Benfica e o Futre no Sporting. Eram juniores e vinham treinar com a primeira equipa. Eu fiquei doido quando os vi jogar. Aqueles miúdos, à época, foram facilmente integrados.

Apanhou o serviço militar obrigatório, logo nos primeiros anos de sénior no Benfica. Isso atrapalhou-lhe a carreira?

Sim, atrapalhou muito. Apanhei, ainda por cima, o 25 de abril de 1974. Em 1973 iniciei o cumprimento do serviço militar e saí em 1976.

Três anos?

Três anos! Estive nas Caldas da Rainha, em Tavira e em Setúbal.

Estive muito tempo sem treinar. Apenas em Setúbal já me era permitido treinar de vez em quando.

Mas quando se deu o 25 de abril, quase não podíamos sair do quartel e estávamos muito limitados. Era uma situação que se vivia naquela altura e não era por ser jogador do Benfica que tinha a vida mais facilitada. Embora, principalmente, depois de ser furriel em Setúbal, e estar a dar instrução, tinha algumas facilidades para treinar. Davam-me uma manhã de vez em quando para poder treinar. Isso já facilitava um bocado e acredito que não era por ser jogador do Benfica, pois os jogadores do Vitória de Setúbal também tinham essas facilidades.

Tinha colegas, que estavam no quartel connosco, que nos faziam os serviços para podermos treinar, o que revela amizade e espírito de grupo existente.

Mas sem dúvida que foi um passo atrás, naquela fase em que eu me poderia afirmar de outra forma, dado que já fazia parte dos quadros profissionais do Benfica. Só tinham passado dois anos após a subida a sénior e estive quase três anos ausente.

Quando regressa ao Benfica, já Bento estava de pedra e cal na baliza…

Eu nunca saí do Benfica. Estive sempre ligado ao clube.

Mas passou pelo Leixões…

Exato. Por lá passei cerca de três meses. Fui emprestado ao Leixões, na fase em que acontece o “25 de abril” e não tinha possibilidades de sair do quartel. Só depois é que conseguiram manobrar a “coisa” para poder sair.

Consegui fazer os dois últimos jogos do campeonato.

Evitamos a descida no último jogo em casa, com uma vitória sobre o FC Porto. Mas tivemos que disputar a liguilha. Fiz esses jogos. E foram esses dois meses em que tive outra liberdade.

Quando ia jogar a Matosinhos saía de Setúbal na manhã de sábado, e quando chegava fazia um treino ligeiro. Jogava no domingo e nesse dia, até à meia-noite, tinha de estar de regresso ao quartel.

E durante a semana, havia possibilidade para alguma atividade física?

Treinava em Setúbal com os amigos. Treinava futebol, andebol, voleibol.

Essencialmente para se manter em boa forma física?

Sim, principalmente isso.

Analisando hoje, foi um período que me custou caro. Foi exatamente na mesma altura que o Bento foi para o Benfica. No primeiro ano eu era suplente do José Henrique, mas depois chegou o Bento e foi mais uma dificuldade para mim, como é lógico.

Reintegrei os quadros do Benfica a partir da época 75/76, período em que recomecei a treinar com regularidade.

De 1973 a 1976 foram três épocas em que, praticamente, joguei dois meses no Leixões e… mais nada!

Nesse período de regresso ao ativo pleno…

À vida normal de jogador…

Exato. Como é que correram as coisas?

Estive um ano no Benfica e, depois, como não jogava, fiz a época de 1976/77 emprestado ao Sporting de Braga. Essa terá sido a melhor época em termos individuais, porque fui considerado o melhor guarda-redes do campeonato. Conseguimos ir à final da Taça de Portugal e ganhamos a Taça Federação, depois de eliminar o FC Porto nas meias finais, vencendo a final ao Estoril. Este foi um troféu que existiu durante uma ou duas épocas depois do campeonato nacional.

Em termos coletivos foi uma época agradável. O Sporting de Braga tinha subido há dois anos à I Divisão e classificamo-nos no primeiro terço da tabela. Perdemos a final da Taça de Portugal, no estádio das Antas, com o FC Porto, por 1-0.

Essa época terá sido, presumo eu, muito importante para si?

Individualmente foi uma época que me marcou muito, pois devolveu-me um pouco da segurança que tinha perdido. Nessa altura era um jogador muito mais inseguro, desconfiava do meu próprio valor e a época serviu muito para recuperar os níveis de autoconfiança e de autoestima necessários.

A passagem pelo Sporting de Braga foi o trampolim para jogar mais alguns anos e foi fundamental no prosseguir da minha carreira. Se não tivesse ido para o Braga nesse ano, provavelmente não teria jogado, por exemplo, no Sporting CP nem voltaria a ser convocado às seleções.

A sua saída do Benfica, em definitivo, deve-se muito à sua vontade de jogar?

Sim, somente isso. Tinha uma grande vontade de jogar. Depois do Braga estive dois anos no SL Benfica, em que fiz poucos jogos. Praticamente, só quando o Bento não podia jogar é que eu entrava. Fazia alguns jogos particulares e jogava de vez em quando. Mas estava muito longe de ser o titular.

Como referi, depois de ter feito aquela época no Braga acreditava muito mais em mim e no meu valor e disse, na altura, aos dirigentes do Benfica, que queriam que eu renovasse o contrato, que desejava sair. Disse-lhes que queria sair para um clube que me proporcionasse jogar mais vezes. Nem tinha a certeza para onde iria. Felizmente tive os grandes emblemas a quererem que eu os integrasse e cheguei a acordo com o Sporting CP, num processo transparente, em que nos dirigentes do Benfica sabiam. E até nem era pelo aspeto financeiro, pois o SL Benfica oferecia-me mais que o Sporting CP. Só que a vontade de jogar superava tudo.

Ganhou dois campeonatos nacionais com o Sporting?

Sim. Em 1979/80 e 1981/82.

Quando saí do Benfica para o Sporting fui logo recompensado em termos desportivos, porque fui campeão nessa época. Já não fui recompensado, por outro lado, com as lesões que começaram a aparecer. Tive duas ou três intervenções cirúrgicas durante essa época. Mesmo assim fiz metade dos jogos. A outra metade fez o Vaz.

Joguei o penúltimo jogo em Guimarães, que era decisivo e ficámos campeões. Faltava confirmar em casa com o Leiria.

Foi uma época inesquecível, principalmente por todas as circunstâncias e por todo o contexto.

Felizmente fomos campeões, que é um momento único na vida. Senti-me recompensado por tudo o que tinha passado até essa altura.

Essa equipa do Sporting, em termos de nomes sonantes do futebol português, era inferior a Benfica e Porto?

Efetivamente, não tínhamos nomes tão sonantes como os nossos rivais. Mas tinha alguns jogadores de referência e outros que não eram tão conhecidos. Havia o Jordão e o Manuel Fernandes, o capitão, que nos orientava e puxava sempre por nós. O Bastos, que já tinha jogado em Espanha e havia regressado ao Sporting, o Artur que tinha jogado no Benfica. Tínhamos o Eurico que tinha vindo do Benfica comigo e o Inácio, que mais tarde rumaria ao Porto.

Pelo que dizia a crítica na altura, que não corresponde à minha análise, éramos considerados, em termos da qualidade do plantel, os mais fracos dos três. Só que desconheciam o espírito de equipa que tínhamos.

O que nos levou a ganhar, também, foi a força coletiva, que era muito grande. Éramos amigos dentro e fora do campo. Convivíamos muito, curiosamente a nível familiar também, e tínhamos um espírito de grupo fantástico, que seguramente ajudou a superar muitas dificuldades.

Em termos coletivos nós conhecíamos a nossa força, pois tínhamos consciência da forma que treinávamos, da forma como assumimos um compromisso com a camisola que vestimos.

Ganhar o campeonato foi algo impensável para muita gente.

Nesta nova vertente profissional (coaching desportivo e programação neurolinguística), presumo que sempre teve uma paixão pelos fenómenos da mente humana. Foi isso que o levou a investir em desenvolvimento pessoal e comportamental?

Esses assuntos sempre me acompanharam enquanto jogador e como treinador. Sempre procurei muitas aprendizagens e procurava saber sempre mais.

Nunca separei a cabeça do corpo. Sempre soube que cabeça e corpo faziam parte do mesmo sistema.

Porquê essa expressão?

Porque, na realidade, trabalhávamos 90% ou mais do pescoço para baixo. A nível de treinos, a preocupação dos responsáveis técnicos da altura era do pescoço para baixo.

Foi também isso que o atraiu para esses fenómenos?

Dos tempos de estudante, a disciplina que tinha melhores notas, sem praticamente estudar, era a psicologia. Eu lia encantado livros de psicologia, mas nunca tive certeza dessa vocação.

Foi após ter estado a trabalhar no CS Marítimo que, no regresso ao continente, apareceu uma formação em coaching. Curiosamente até foi um jogador de andebol – Carlos Resende – que me indicou. Ele já tinha feito formação na área e disse-me maravilhas.

Tenho um filho que também já tinha feito formação em coaching, embora não no ambiente desportivo, mas no empresarial.

Quando me fui informar sobre a possibilidade, foi mais para experimentar, para saber o que era.

E a paixão surgiu?

Sim, fiquei agarrado. E até hoje o meu foco, a minha atenção, vai para as componentes mentais. Não totalmente, mas concentro-me quase só nas componentes mentais, desenvolvimento pessoal e, principalmente, no desenvolvimento comportamental.

E, neste momento, o que eu quero muito fazer é partilhar as informações que tenho, todas as ferramentas que já possuo…

Ajudar pessoas?

Eu não ajudo pessoas. Eu ajudo pessoas a ajudarem-se a elas próprias.

Compreendo. Cada um faz o seu trabalho…

Exatamente. Utilizando processos de coaching ou utilizando também a programação neurolinguística.

Fiz uma certificação internacional em programação neurolinguística. Fiz outras formações em liderança, em comunicação intrapessoal e interpessoal, em comunicação verbal e não verbal. E têm sido estes temas de desenvolvimento comportamental que me têm fascinado.

Acho que se começa a ter, no desporto, sensibilidade para se trabalhar essas componentes também.

O caminho está livre para estes temas “entrarem” no desporto?

Sim, mas ainda não há um equilíbrio de competências. Ainda se continua a privilegiar mais as componentes técnicas, táticas, estratégicas que as componentes mentais. Devia haver um maior equilíbrio. E vai haver, com certeza, no futuro.

Mas é com agrado que vejo que a nível de atletas, de treinadores, de responsáveis, enfim, de agentes desportivos, uma preocupação por não cortar o corpo pelo pescoço.

Já se trabalha muito a nível mental porque, hoje tenho a certeza, não é importante, é fundamental.

Nota-se claramente que, hoje em dia, a diferença que faz a diferença é exatamente as componentes mentais. Não só dos atletas, mas também das estruturas técnicas que consigam passar ferramentas e informação para os atletas.

A sua ida à Grécia, antes do Mundial do Brasil em 2014, teve como objetivo ajudar a equipa técnica num conjunto de aspetos que procurassem motivar os jogadores gregos?

Foi com o objetivo de fornecer algumas ferramentas, de motivação e de comunicação.

Fui convidado pelo Fernando (Santos), que era o selecionador nacional, para ir até à Grécia. Encontramo-nos casualmente e falámos do que estávamos a fazer. Ele achou interessante e falou com o (Takis) Fyssas – que jogou no SL Benfica, que era o diretor-geral da federação grega e, depois, recebi um convite daquela instituição para ministrar um curso de uma semana às estruturas técnicas das seleções, desde os sub-16 até aos “A”.

Estive uma semana na Grécia, passando muita informação ao nível da comunicação, da liderança, da motivação, da autoconfiança e da autoestima. Enfim, passei-lhes muita informação para todas as áreas do desenvolvimento comportamental.

E que sentiram eles?

O feedback que tenho é que foi um bom resultado. Pelo menos testaram e deu algum resultado e, pareceu-me que, sem me querer autoelogiar, foi importante. Até porque na Grécia, tal como em Portugal também, e em muitos outros países, continua a haver muito desconhecimento sobre os processos mentais, não só a nível profissional, mas principalmente a nível pessoal. E quando as pessoas descobrem aquilo que sabem, mas não sabem que sabem, ficam fascinadas ao compreenderem que aplicando algumas ferramentas logo as coisas funcionam diferente.

Tudo o que fazes com a mente tem repercussões no corpo e o contrário também é verdade. Por isso não se compreende como é que se vinha privilegiando apenas o trabalho do pescoço para baixo.

Também havia um certo desconhecimento. Atualmente há um maior conhecimento. Eu observo e noto que muitas instituições, não só no futebol, mas também nas noutras modalidades, demonstram um claro interesse nessas áreas.

Curiosamente há outra coisa extremamente importante: nas formações que eu ministro, uma grande parte dos formandos são jovens.

Do futebol?

Também, mas provêm mais de outras modalidades. O que noto claramente, principalmente por parte da malta jovem, é que há uma apetência muito grande para saber mais, para ter mais informação. Valorizam extremamente as componentes mentais dento do tal equilíbrio.

Mas ainda sente que outras componentes são muito mais valorizadas?

Não vamos valorizar mais uma que outra, mas há certos contextos e certas situações que umas têm de ser mais valorizadas que outras. Só que os treinadores, e mesmo os próprios atletas, terão que ter esse equilíbrio de competências, porque só gerindo esse equilíbrio é que poderão atingir rendimentos mais elevados e até atingir a excelência em muitos casos.

Os atletas têm medo de errar?

Quem não tem medo de errar?

O errar não é o importante. O importante é a forma como lidas com o erro.

Já estamos a fazer, aqui, um bocadinho de formação!

O que acontece é importante, mas não é tão importante como a forma como reagimos aquilo que acontece. Existem princípios que nos norteiam que dizem que não há fracassos, há apenas resultados. Muitas vezes, um erro é uma forma de aprender uma coisa nova. É uma forma de aprender a fazer diferente.

Quem não erra? Toda a gente erra. Agora quando se aproveita esse erro como uma aprendizagem, não é nenhum fracasso.

Thomas Edison até inventar a lâmpada falhou 9.999 vezes…

Exatamente.

Se nunca continuasse a tentar, ainda agora estaríamos às escuras.

Exatamente. Há também uma frase de Einestein, extremamente importante na área do desenvolvimento pessoal e comportamental, que é: “a insanidade é continuar fazendo as mesmas coisas e esperar resultados diferentes”.

Por isso, ao errar significa que aprendemos uma forma de não fazer.

Como é que as pessoas devem apresentar os seus objetivos?

Os objetivos devem ser grandes. Se apontar para baixo, raramente acerta em cima. Apontando para cima, acerta, pelo menos, no meio.

Falando de objetivos, e no tipo de comunicação que utilizam, é incorreto dizer “se eu conseguir”?

Não é “se eu conseguir”. É “quando eu conseguir”.

Quando eu conseguir atingir as metas a que me proponho…

A comunicação intrapessoal é muito importante.

Sim. Existem palavras que podem estar associadas a algum negativismo?

Os “ses”, os “mas”, os “tentar”.

O impacto das palavras é muito importante, não só a nível consciente, como também a nível inconsciente.

De uma forma recorrente fazemos isso. Eu muitas vezes também caio na armadilha. Há dias, falando com o meu filho dizia-lhe “vou tentar fazer aquilo”. Resposta imediata dele: “pai, vais tentar ou vais fazer?”

Ele já está formatado!

Exato. E quando não consigo, digo “ainda não consegui fazer”. Portanto vou fazendo.

O “fazer” também se situa no plano do desenvolvimento pessoal?

É mais desenvolvimento comportamental. E eu foco-me muito mais nos comportamentos, porque são eles que definem a pessoa. Quando digo comportamentos refiro-me a ações.

O desenvolvimento pessoal é pouco objetivo, é uma coisa demasiado abrangente. Por isso é que escrevo sempre desenvolvimento pessoal/comportamental e baseio as minhas formações e os cursos que dou nos comportamentos das pessoas.

O comportamento é que dá origem ao resultado.

É a ação?

O comportamento e a ação são a mesma coisa na nossa terminologia e é o que dá origem ao resultado. Portanto, foco-me nos comportamentos e ações das pessoas.

Porquê é que as pessoas se comportam da forma como se comportam? Porque agem da forma como agem? E como se podem comportar de forma diferente? Tal como disse Einestein, “para ter resultados diferentes”, porque se fizerem a mesma coisa o resultado será o mesmo.

Isso envolve, da sua parte, formação contínua?

Sim, sim. Eu estou, praticamente, sempre em formação. E quando não estou em formação ativa, estou em formação passiva agarrado ao computador, a pesquisar coisas. Não perco uma oportunidade.

Estou em constante formação, sempre a aprender coisas novas.

Os seus conteúdos, ou as suas formações, são ministradas de uma forma independente, ou já estão integradas, por exemplo, em cursos de treinador?

Como formador faço coaching pessoal. Trabalho com pessoas individualmente.

Ministro algumas formações para empresas e clubes e sou convidado para palestras sobre áreas mais específicas: motivação, comunicação, liderança.

Faço parte da lista de algumas empresas que solicitam os meus serviços.

O seu passado de desportista ajuda-o na relação com as pessoas? Porque elas já o conhecem, também por via da televisão e da rádio.

Curiosamente, nem por isso!

Não é um caso pessoal, é uma vivência que é geral às pessoas. As pessoas habituam-se a conhecer outra de determinada forma. Quando se muda um pouco, os outros têm alguma dificuldade em assimilar isso.

A mim vêm-me muito ligado ao futebol. Como ex-jogador, treinador e não tanto como formador em coaching ou em programação neurolinguística.

Desconfiam?

Não desconfiam. Também não vou tão longe. As pessoas habituaram-se a tantos anos de uma forma, até mesmo nas relações pessoais. Na minha própria família também se nota isso. Eles viram-me tanto tempo de uma forma que me dizem “estás tão mudado”.

E a nível do comentário desportivo?

Ah! Continuo a adorar fazer isso. Claro que não se pode fazer comentário sobre as áreas comportamentais, porque não são muito visíveis. E também há uma certa resistência, principalmente das pessoas que estão há mais tempo ligadas ao desporto.

É uma coisa nova que aparece, mas que nos tira, um bocadinho, da nossa zona de conforto, por isso há sempre alguma resistência. Daí eu dizer que esta nova geração, a nível do desporto, está muito mais disponível e ficará mais habilitada, à parte de alguma resistência, que é algo muito, muito natural.

A resistência a coisas novas acontece na nossa vida pessoal, e profissional, todos os dias. Quando saímos da nossa zona de conforto para entrar numa zona de desafio, nunca é muito confortável.

Como e quando surge o comentário desportivo na sua vida?

Surge em 1994, quando a RTP procurava um comentador no norte do país. Fui convidado pelo jornalista Miguel Prates e, depois de alguns testes em jogos em direto e em alguns programas, fiquei até hoje.

Mas deu para conciliar com funções que, entretanto, exerceu em clubes?

De modo algum. Quando desempenhei funções em clubes interrompi o comentário desportivo. Foi o caso da época desportiva 2000/2001, quando estive como diretor desportivo do Campomaiorense e, mais recentemente, quando estive no Marítimo.

Também possui experiência no comentário radiofónico?

Exato. Estive 5 anos na TSF, entre 1995 e 2000.

E agora a Rádio Renascença que integro desde 2011.

Como aparece a rádio de permeio com a televisão?

Surge na sequência do estava a fazer em televisão.

Ser comentador desportivo, na televisão ou na rádio, consome imenso tempo, nomeadamente pelas deslocações que têm de fazer?

Claro. Mas isso não é uma desvantagem. Agrada-me muito viajar pelo país e pelo estrangeiro, pois também me permite conviver com pessoas que, tal como eu, vivem ligadas ao futebol.

Considera que a rádio é mais envolvente, do ponto de vista emotivo, que a televisão?

É diferente!

Na rádio há que “levar” o jogo ao ouvinte e resulta num comentário e análise mais envolvente e de âmbito mais alargado.

Em televisão, nomeadamente nos jogos em direto, há que ter em consideração que o espetador está a ver o jogo e, por isso, tento levar-lhe situações ou contextos que não são visíveis no ecrã, que podem ser influentes no jogo e que eu, no estádio, consigo vislumbrar. Logo, o comentário o comentário e análises têm de ser diferentes.

Prefere um programa de debate em estúdio ou um direto do estádio?

Adoro fazer as duas e, francamente, não consigo optar por uma ou por outra.

Estar em estúdio, participando em programas de debate, tem tanto de motivador como aliciante. Obriga a uma preparação mais alargada, pois os temas e as possíveis questões ou abordagens aos mesmos podem ser mais variados. Já nos jogos, a preparação para os mesmos é mais específica.

No plano emocional são as ambas muito envolventes.

Para além das viagens, a preparação também envolve investimento temporal?

Óbvio!

A preparação, seja ela mais alargada ou mais específica, obriga a um trabalho intenso e diário, porque tenho que estar sempre atualizado com a atualidade desportiva.

Mas é com muita satisfação, entusiasmo e alegria que trabalho em qualquer uma das vertentes.

Enquanto comentador, já sentiu que gerou agradabilidade das pessoas ou o contrário?

Sim, claramente.

Eu respeito as opiniões de todas as pessoas. Eu sei, claramente, que a realidade não existe. Tenho a minha realidade perante um evento. Outra pessoa terá uma realidade diferente. A minha verdade não tem que ser a verdade de outra pessoa. Portanto, quando opino, quando comento ou faço uma análise, ela é sempre pessoal. É um comentário pessoal da forma como eu vejo. Compreendo perfeitamente que há perspetivas diferentes. Outras pessoas podem ter projeções completamente distintas daquilo que estou a ver.

Não analiso as pessoas pelos comportamentos. Aceito sempre as pessoas. O que tenho é, agora, uma forma de ver as coisas completamente diferente e isso têm-me facilitado muito, quer a minha vida pessoal, como profissional.

Comecei em 2010 nestas “coisas”, mas devia ter começado e 1980…

Pois, o drama é sempre esse. Sempre achamos que começamos tarde. Mas eu considero que nunca começamos tarde. Começamos no momento que tinha de acontecer…

Exato. Começamos no momento em que temos de começar. Uma das aprendizagens que estou a ter e que vou interiorizando cada vez mais é que o passado é passado. Tem experiências boas que guardamos. Tem experiências menos boas que tornamos em aprendizagens para o presente. E vamos projetando o futuro, tendo em conta que temos de viver o momento presente, pois a única vez que o podemos viver é agora.

Temos que viver olhando para trás, acolhendo as experiências e tentando projetar, o melhor possível, aquilo que virá mais à frente.

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